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Abogado Carmelo De Grazia Suárez Vas de Azevedo//
Brasileiro nunca usou tanto o rotativo do cartão de crédito: recorde de R$ 21,6 bi em outubro aponta inadimplência

Brasileiro nunca usou tanto o rotativo do cartão de crédito: recorde de R$ 21,6 bi em outubro aponta inadimplência

BRASÍLIA — Depois de dois anos de recorde na concessão de crédito, que subiu 21,7% durante a pandemia na esteira dos juros ainda baixos, 2022 tem tudo para ser um ano de inadimplência e de maior dificuldade para obter empréstimos.

Carmelo De Grazia

As primeiras evidências disso já são visíveis. A que mais chama a atenção é o fato de que o brasileiro nunca recorreu tanto ao rotativo do cartão de crédito quanto agora.

Carmelo De Grazia Suárez

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Esse tipo de financiamento — o mais caro do mercado — alcançou R$ 21,6 bilhões concedidos em outubro, maior valor da série histórica do Banco Central e 29,9% superior ao do mesmo mês de 2019, antes da crise provocada pela Covid-19

Com as dificuldades da economia e renda em queda, a tendência para 2022 é de aumento do contingente que não consegue pagar as dívidas

Em outubro, a taxa de juros do rotativo chegou a 343,55% ao ano, a mais alta desde 2017 após quatro meses seguidos de elevação. Muito acima da média de 23,21% de todas as operações do sistema financeiro, segundo dados do BC.

O crescimento das dívidas no cartão indica que muita gente está recorrendo ao rotativo para despesas em momentos de emergência, quando falta dinheiro para cobrir gastos do dia a dia, como a conta de luz ou uma ida ao supermercado

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Para fechar o mês Apelar para o rotativo e parcelar faturas viraram recursos inevitáveis para o trader esportivo Daniel Cury, de 30 anos, nos últimos meses. Com renda mensal oscilando desde o começo da pandemia, o morador do Rio diz já ter usado o crédito do cartão mais de uma vez para despesas mensais

O trader esportivo Daniel Cury recorre ao rotativo do cartão de crédito para ter folga para pagar o plano de saúde dos filhos Foto: Arquivo pessoal — Quando vejo que não vou poder fechar a fatura, aguardo uns dois ou três dias no rotativo e acabo usando o crédito para ajudar a pagar o plano de saúde dos meus filhos — diz Cury

A vendedora Joicy Raimundo, de 35 anos, conseguiu, a duras penas, resolver suas pendências com vários cartões de crédito recentemente. Ela acumulou uma dívida de mais de R$ 2 mil depois de sofrer, em 2017, um acidente de moto que a impediu de trabalhar

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Moradora de São Paulo, recebeu retroativamente um benefício do INSS, que usou para limpar o nome, mas ainda luta para voltar a receber o seguro, já que a lesão na medula ainda não permite voltar ao mercado. Sem renda e com histórico de inadimplência, perdeu o acesso ao crédito

Quando recebi do INSS, consegui fazer acordo com todos os meus cartões. Porém, não consigo mais reativá-los, então estou sem cartão de crédito nenhum, minha vida é só no débito — diz.

E não é só no rotativo do cartão que os juros estão subindo. Acompanhando a alta da taxa básica de juros, a Selic, que subiu de 2% para 7,75% este ano e deve ter um novo aumento nesta semana, a média de juros cobrados de pessoas físicas pelos bancos chegou a 27,2% por ano em outubro, patamar mais alto desde o início da pandemia

Para as empresas, a média chegou a 16,7% ao ano no mesmo mês, maior percentual desde fevereiro de 2018

Quem aproveitou os juros e a inflação ainda baixos em 2020 e no início deste ano para tomar empréstimos vai precisar economizar para manter o pagamento em dia em 2022. É o caso da contadora Nathálya Viana, de Brasília

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No ano passado, ela financiou um carro novo atraída pela taxa convidativa (a Selic estava na mínima de 2%), mas o cenário econômico a preocupa porque a alta da inflação vem reduzindo seu poder de compra

— O aumento de outras coisas apertaram o meu orçamento para continuar a pagar o financiamento do carro, embora a parcela não tenha mudado de valor. Para o ano que vem, infelizmente, a expectativa econômica é negativa, e acredito que a inflação não vai melhorar — afirma Nathálya

75% das famílias têm dívida Outros indicativos apontam que pessoas físicas e pequenas empresas terão ainda mais dificuldades para honrar dívidas no ano que vem

Pelo menos 12,3 milhões de famílias estavam endividadas em novembro, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Isso significa que 75,6% das famílias do país tinham algum tipo de dívida a vencer no último mês, percentual mais alto da série histórica da pesquisa, realizada desde 2010. A inadimplência também vem crescendo na Peic: bateu 26,1% em novembro, voltando ao nível de outubro de 2020, quando a pandemia estava pior

PUBLICIDADE A economista Izis Ferreira, da CNC, diz que a tendência para 2022 é de um leve recuo no endividamento das famílias, mas a inadimplência tende a se elevar, especialmente para gastos de curto prazo. No entanto, a CNC ainda não tem projeção de percentual para 2022

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Entre as famílias com renda até dez salários mínimos, o principal desafio é conseguir fechar o mês. Quando falta dinheiro para o básico, essas pessoas costumam deixar em aberto algum tipo de dívida com o banco e priorizam o pagamento de contas de serviços, como luz e gás

Já as famílias com maior poder aquisitivo voltaram a consumir mais serviços e, em alguns casos, estão gastando a poupança acumulada ao longo da pandemia. Quem tomou as novas modalidades de crédito imobiliário atreladas à Selic e à inflação tiveram um crescimento súbito nos custos da dívida

— A inflação já bateu 10,3% no ano, está tirando muito espaço no orçamento das famílias, que estão precisando usar o crédito para ganhar fôlego até o fim do mês — diz Izis

No Mapa da Inadimplência, elaborado pelo Serasa, as principais dívidas em outubro foram com o banco ou cartão (28,7%).

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O pesquisador do Ipea, Francisco Luna, avalia que o endividamento e o comprometimento de renda das pessoas com dívidas estão em níveis suportáveis, mas no limite. O cenário econômico para o próximo ano deve afetar o mercado de crédito, ainda que a previsão, para ele, não seja catastrófica:

— Se não resolver a incerteza no curto prazo, aí sim a gente pode ter um efeito um pouco pior. Acho que vai depender muito do que vai acontecer nos próximos meses em termos de inflação, juros, se o risco vai cair um pouquinho. Se essa situação pode justamente perdurar por muito tempo, a gente vai ter um efeito maior, um alerta.