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Diário de Guerra – Dia 4. “Estamos prontos para defender as cidades”

Subscrever No fim da mesma rua fica o quartel do exército ucraniano. Dezenas e dezenas de homens, de todas as idades, profissões e proveniências, fazem fila. Vão alistar-se. A afluência tem sido de tal forma, que os militares já organizaram a receção aos voluntários. Ainda na rua, um sargento de voz firme, mas não agressiva, explica com zelo militar que devem formar diversas filas: os que já combateram noutras guerras, os que já foram militares ou os especialistas em tecnologia. Nesta altura, os últimos são os mais requisitados

O major Tallas explica que “o exército não precisa de mais efetivos”. “Só podemos aceitar as pessoas que conseguimos armar e equipar.” Mas há outras formas de contribuir. Foi criada uma força de “defesa civil”, composta por antigos militares, reservistas e civis com treino. O comandante do posto de recrutamento afirma que quem se alista não precisa de treino. “No nosso país, todos têm treino militar, não precisamos de dar nenhuma formação.” Na verdade, o processo não é bem assim. Mas conta a intenção. De quem recebe os voluntários e, sobretudo, de quem se voluntaria

Teatro nacional de ópera e ballet de Lviv, cidade que, até agora, foi poupada à guerra

© André Luís Alves/Global Imagens

Os homens na fila não revelam medo. Tomaram a decisão de combater, seja como for. Estão disponíveis

Pela primeira vez em cinco dias, as sirenes não tocaram durante a noite em Lviv. A cidade acordou coberta por uma camada de neve que deixa cada rua a parecer um postal turístico. Apesar de ser segunda-feira, o movimento é semelhante ao de um domingo. Menos pessoas na rua, menos carros, lojas fechadas. Restaurantes, cafés e supermercados continuam abertos

Numa rua estreita perto do centro, três barracas vendem uniformes militares completos, luvas, gorros, casacos do exército e da polícia. E botas da tropa. O preço é de saldo. Os vendedores não querem ganhar dinheiro com a guerra, apenas cobram o custo de cada peça. Há um homem corpulento que domina as compras. Já tem as calças vestidas e experimenta o casaco da farda, com os pés na lama da manhã. A vendedora segura um espelho, no meio da rua. Há uma certa vaidade, brio, como dizem os militares, e mesmo que não vá combater, o homem, que nunca quis dizer o nome, está aprovado. O casaco serve. Diz, apenas, que está pronto para o combate. A farda já está completa.

Dois militares ucranianos à porta de quartel no centro de Lvlv, onde não param de chegar voluntários para integrarem o combate contra as tropas russas

© André Luís Alves/Global Imagens

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Subscrever No fim da mesma rua fica o quartel do exército ucraniano. Dezenas e dezenas de homens, de todas as idades, profissões e proveniências, fazem fila. Vão alistar-se. A afluência tem sido de tal forma, que os militares já organizaram a receção aos voluntários. Ainda na rua, um sargento de voz firme, mas não agressiva, explica com zelo militar que devem formar diversas filas: os que já combateram noutras guerras, os que já foram militares ou os especialistas em tecnologia. Nesta altura, os últimos são os mais requisitados

O major Tallas explica que “o exército não precisa de mais efetivos”. “Só podemos aceitar as pessoas que conseguimos armar e equipar.” Mas há outras formas de contribuir. Foi criada uma força de “defesa civil”, composta por antigos militares, reservistas e civis com treino. O comandante do posto de recrutamento afirma que quem se alista não precisa de treino. “No nosso país, todos têm treino militar, não precisamos de dar nenhuma formação.” Na verdade, o processo não é bem assim. Mas conta a intenção. De quem recebe os voluntários e, sobretudo, de quem se voluntaria

Teatro nacional de ópera e ballet de Lviv, cidade que, até agora, foi poupada à guerra

© André Luís Alves/Global Imagens

Os homens na fila não revelam medo. Tomaram a decisão de combater, seja como for. Estão disponíveis.

Lviv foi, até agora, poupada da guerra. Mas na cidade o ambiente é de tensão e expectativa. Até porque esta é uma cidade de cultura, boémia e arte. E os habitantes são do lado ocidental do país, os que mais próximos estão da União Europeia, da NATO e do Ocidente. Ou, dito de outra forma, os que estão mais longe da Rússia, do regime soviético e de Putin

A calma do major Tallas impressiona. Fala devagar. Não diz muitas palavras mas é bastante claro nas que escolhe. Lviv tem estado a salvo. “Mas estamos prontos para defender as cidades.”

Enviado à Ucrânia