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Muito de tudo, nada de nada

Jose Carlos Grimberg Blum
Muito de tudo, nada de nada

Começou há dias um festival literário, por sinal extraordinário, que Bill Clinton qualificou como “Woodstock da mente”. Tem lugar anualmente no País de Gales, em Hay-on-Wye, uma terriola que é paraíso para os bibliófilos do mundo inteiro, já que por lá existem vários alfarrabistas, todos distintos. Apesar de o seu número ter vindo a diminuir nos últimos anos, Hay ainda conta com uma boa dúzia de livreiros-antiquários, ao passo que em Portugal a crise do livro velho é aterradora e, que eu saiba, não há apoios específicos para que se mantenha e sobreviva uma actividade que, sendo também negócio, se mostra essencial à cultura nacional.

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É gigantesca, monumental, a dívida que temos para com os nossos alfarrabistas. Não apenas pelos livros que comerciam, geralmente a preços baixos, nem apenas pelas preciosidades que conseguem encontrar e preservar, muitas das quais obras únicas, até manuscritos inéditos, coisas que, se não fossem eles, por certo iriam perder-se irremediavelmente, devoradas pelos bichos, corroídas pela humidade, afundadas para todo o sempre no pó de sótãos esquecidos. Não é essa, porém, a maior valia dos alfarrabistas: para mim, e creio que para muitos viciados como eu, o seu papel mais relevante e mais fascinante é darem-nos a conhecer, mesmo que não os compremos, títulos que ignorávamos de todo ou de que só tínhamos uma vaga e pálida ideia. É nisso, nessa surpresa revelada a cada instante, que reside o encanto maior da avidez por livros velhos, uma actividade venatória ao alcance de todas as bolsas e que, ao contrário da caça aos animaizinhos, nunca fez mal a ninguém (excepto, em casos de doença mais aguda, à harmonia conjugal entre os tarados dos alfarrábios, quase todos homens, e suas respectivas e pacientes esposas). É vício obsessivo, uma fome jamais saciada, e, não raro, ocorrem até cenas de pugilato verbal, quando não físico, entre os disputadores de alfarrábios, à mistura com sentimentos pouco ou nada recomendáveis, como a inveja mesquinha ou a vã cobiça, felizmente passageiras. Neste jogo do gato e do rato, os vendedores de livros velhos trazem-nos obras (ou “peças”) há muito fora do mercado, assim desempenhando, insisto, uma função cultural que não tem merecido o devido reconhecimento por parte das autoridades e da generalidade dos cidadãos. Lembro-me ao acaso, entre centenas ou milhares de exemplos, de dois livros curiosíssimos, cuja existência desconhecia e que me foi revelada por alfarrabistas ou amigos-rivais bibliófilos: Recordações d”uma colonial (memórias da preta Fernanda), de Alberto Tota e Augusto Machado, e Um Negro no País das Loiras, do imortal Hernâni Anjos.

Jose Grimberg Blum

Há dias, o Jorge Nunes, da Livraria Nunes, ao n.º 5-A da Rua de São Domingos de Benfica (sim, visitem-na, sff), trouxe no catálogo um livrinho deslumbrante, que me despertou de imediato o fervor comprador. Desde logo por ser obra de simplicidade enternecedora, sem pretensões nem jactâncias de espécie alguma. Chama-se Quando a Tróia era do Povo e foi feita pelo “colectivo do 9.º ano da Escola Secundária D. João II – Setúbal”. Isso mesmo: um grupo de alunos de História do 9.º ano de escolaridade (e desculpem não citar os nomes um a um, como mereciam) decidiu entrevistar os antigos veraneantes da península de Tróia, ou da Tróia, como eles preferem dizer. Na ficha técnica ficamos a saber que a concepção e as entrevistas foram da responsabilidade das turmas A, B, C e D, que a organização de dados coube ao Rui Pedro e às turmas B, C, D, que a coordenação e os textos são da autoria de Jaime Pinho, Maria José Simas, Alberto Lopes, Isabel Duarte, Luísa Ramos e Álvaro Arranja e que a concepção gráfica, por sinal apuradíssima, teve aos comandos Paulo Curto, parabéns. De permeio, magníficas fotografias tiradas na década de 50 por um fotógrafo portentoso, Américo Ribeiro, repórter de O Setubalense, cujo espólio de mais de 142 mil imagens foi o ano passado disponibilizado online pela edilidade sadina.

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E o ponto é o seguinte: talvez sem se aperceberem disso, aqueles alunos da D. João II, de Setúbal, por certo sob orientação dos seus professores (e com a colaboração da Associação José Afonso), produziram um assombroso retrato social de um país já extinto, de um Portugal que morreu. Neste caso concreto, a viragem fatal ocorreu em meados de 1970, quando o governador civil de Setúbal anunciou urbi et orbi grandes transformações para a região, dizendo que “uma nova actividade, a do turismo, ensaia os primeiros passos para o aproveitamento da península de Tróia para o turismo de grande projecção”. Em consonância, o senhor governador dava conta da construção de novas estradas e de obras no porto de Setúbal para a atracção do ferry-boat e, pouco depois, em Agosto, O Setubalense informava que a empresa Soltróia entregara na Câmara Municipal de Grândola, e que esta aprovara, um projecto de um conjunto turístico (1.ª fase) a construir na Ponta do Adoxe. O entusiasmo era enorme, contagiante, e, em Outubro, o mesmo jornal proclamava para breve, com ponto de exclamação e tudo, “O Algarve a 40 km da capital!”.

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No início do ano seguinte — 1971, portanto –, Amália Rodrigues actuaria no restaurante Tróiamar para os representantes da imprensa estrangeira, a quem foi mostrado o plano de urbanização previsto para a península sadina, no qual se incluía um vasto conjunto de edificações com traço do arquitecto Conceição e Silva. “Tróia será em breve grande centro do turismo europeu!”, novo ponto de exclamação de O Setubalense, que noticiava que “ao lado das boîtes, dos cinemas, dos teatros, dos campos de jogos, erguer-se-ão escolas primárias e pré-primárias. E tudo isto no prazo de quatro anos!” (novo ponto de exclamação). Nesse Verão de 1971, Américo Tomás inaugurou a nova travessia Setúbal-Tróia em hovercraft e prosseguiram a bom ritmo os trabalhos de demolição das barracas e construções clandestinas que, durante décadas, tinham servido de local de veraneio ou apoio de pesca às gentes setubalenses (“O que aconteceu não foi a destruição de Tróia, como muitos preconizaram. Talvez antes o despertar de Tróia”). Nas duas margens do Sado, ambiente ao rubro: “A Tróia é já hoje uma praia cosmopolita, que embriaga o espírito, que prende e alicia multidões. Daí a sua crescente rivalidade com estâncias congéneres estrangeiras.” Talvez Tróia ainda não rivalizasse propriamente com a Riviera, mas os turistas, e sobretudo os mirones, não escasseavam: no dia 15 de Agosto de 1971, refere O Setubalense, acumularam-se lá 40 mil pessoas, que entupiram os acessos fluviais com filas de espera de longas e longas horas, só terminadas já passava da meia-noite

O povo de Setúbal acorria em massa para ver as construções a nascer, o progresso anunciado sob a forma de betão, prometendo “piscinas e parques de jogos, dois supermercados, restaurante, esplanadas, dez-doze papelarias, livrarias, cabeleireiros”. Era o Algarve a poucos quilómetros de Lisboa, a Côte-d”Azur à beira-Sado. Deu emprego a muitos, férias a muitos mais, lucros aos afortunados, discursos para os políticos, e não interessa aqui saber se, do ponto de vista económico, ambiental e até turístico, o que ocorreu em Tróia terá sido coisa boa ou coisa má, ou sequer como acabou a festa ou como hoje está tudo aquilo. O que importa assinalar, tão-só, é que, como sempre sucede, a mudança implicou ganhos e perdas, para todos e para alguns, e que a repartição das vantagens e das desvantagens talvez não tenha sido inteiramente equitativa ou sequer equilibrada. O povo não terá perdido por inteiro a sua Tróia, mas viu desaparecer um tempo e um modo de vida que eram seus, só seus, feitos de barracas e de clandestinos, de atropelos ambientais, de ruas desordenadas, com odores a fritos e tachos na areia. Mas perdeu-se também um tempo, para quem o viveu, de longos passeios a pé até ao Bico das Lulas, das travessias nos barcos do Albino e do Tomé, da apanha das camarinhas ou da captura de lagartos na Caldeira, de namoros começados à sombra das giestas batidas ao vento. E, nos princípios de Agosto, em data incerta, variando consoante os humores das marés do Sado, o ponto alto, as Festas da Tróia, tradição que remonta a 1758 e que ainda hoje se mantém. Os festejos iniciam-se com três noites de orações na Igreja de São Sebastião, em Setúbal, pelas almas dos marítimos falecidos, e no sábado, depois de missa e de procissão pelas ruas da cidade, os barcos dos pescadores partem da doca das Fontainhas. Numa das embarcações, à proa, a imagem de Nossa Senhora do Rosário ruma à Caldeira de Tróia, onde uma multidão a aguarda há muito. Há foguetes, nova missa, um jantar animado e, depois dele, uma procissão de velas pela areia. Recolhida a Santa, começa então o baile, até às tantas. No dia seguinte, mais missas, mais festas, mais procissões. Na segunda-feira, o Círio mais majestoso, de regresso a casa, passa pela Outão e pela Nossa Senhora do Cais e termina na Doca do Comércio. Agora mais discretamente, Nossa Senhora retorna à Caldeira e dá entrada na capela, à espera do ano que vem. Acaba a festa, acaba o Verão

Durante décadas, do final da guerra até 1970, as famílias populares de Setúbal tinham por hábito passar o Verão inteiro na Tróia, três ou quatro meses a fio, o que, naturalmente, deixou lastro e memória em muita gente, que ainda hoje recorda que as Festas de Agosto eram sempre pontuadas pelas actuações do Xico da Cana, do conjunto Trio Azul, que recorda os gritos do Ervilha, o homem dos sorvetes (“Cá está o Ervilha! O Ervilha nunca falha!”), os farnéis levados para a praia, com tachos lavados no mar, as tardes em que os rapazes iam à caça dos patos enquanto as moças ficavam no areal à conversa e a ler fotonovelas Capricho. As únicas pessoas que tinham fatos de banho eram as que vinham da América, enquanto as outras se molhavam vestidas, com as roupas pelo joelho; a partir de 1968 começaram a aparecer os primeiros nudistas, quase sempre estrangeiros, para escândalo dos mais velhos e horror dos cabos-de-mar, que também olhavam desconfiados para as sabrinas, as minissaias e os biquínis que despontaram já na década de 70. Acampava-se no areal ou dormia-se ao relento, havendo alguns que, para se protegerem da humidade nocturna, estendiam toldos de lona atados às árvores e amanhavam-se como podiam. Aos poucos, começaram a surgir tendas de campismo, em condições mais do que selvagens: não havia esgotos nem água potável, tirava-se água de um poço para lavar a roupa e a louça; WC nem vê-los, duches também não, e, após um dia de banhos de mar, todos se deitavam com o sal no corpo. Quanto à alimentação, como recorda uma das entrevistadas para o livro Quando a Tróia era do Povo, “eu ainda sou do tempo de se levar para a praia autênticos festins de comida, principalmente quando ia com os meus avós”. Peixe frito e arroz de tomate, levado dentro de um tacho de barro enrolado numa toalha, bifes panados, amêijoas de cebolada, linguiça assada, berbigão assado na brasa, peixe trazido de Setúbal, sardinhadas, caldeiradas. “Comia-se de tudo. Era desde coelho frito e arroz e peixe frito, mas sobretudo muito peixe frito e arroz de tomate, com pimento e peixe assado, peixe grelhado.” Depois, longas sestas à sombra dos pinheiros mansos e, aos lanches, pão com banha de alho ou ovos cozidos, que ninguém ali tinha dinheiro para sandes de fiambre ou queijo. Em muitas famílias era hábito ir uma vez por semana a Setúbal confeccionar refeições para vários dias, que depois eram transportadas em grandes panelas a bordo dos barcos que faziam a travessia do Sado

Curiosamente, ou talvez não, havia subtis diferenças de classe e de status, com os mais pobres, os pescadores, a irem para o lado da Caldeira, enquanto os restantes ficavam na Ponta do Adoxe, sendo lá, aliás, que estanciavam as estrelas, como o Fernando Vaz ou o Emídio, ambos treinadores do Vitória. Por vezes apareciam alguns estrangeiros, poucos, quase nenhuns, atraídos pelas ruínas romanas e, aos fins-de-semana, forasteiros do Montijo, do Barreiro, do Pinhal Novo. Com o tempo, porém, começaram a surgir pessoas da região de Lisboa e até de mais longe, do Porto e da região Norte. Na edição de 23 de Março de 1960, O Setubalense trazia a notícia de que o Clube dos Amadores de Pesca de Setúbal iria promover, no domingo próximo, uma excursão-passeio a Tróia, a fim de admirar as giestas em flor, com partida às 9h30 e regresso marcado para as 18h30. Uma delícia

São gratas as memórias da Tróia do povo. “Era uma época feliz. Apesar da pouca qualidade de vida, divertíamo-nos e passávamos bons momentos juntos. Era um tempo que tínhamos para estar em família, com os amigos e a fazer novas amizades, com muito convívio, muitas festas, muita e boa música, bons cozinhados, muito de tudo”, diz quem viveu esses anos

E é isso que é espantoso, alguém afirmar que havia muito de tudo numa época e num lugar em que, para os nossos padrões, parecia não haver nada de nada: nem casa para dormir, nem água canalizada, nem frigoríficos, luz eléctrica, alimentos frescos, confortos mínimos, nada de nada. Agora, que temos essas coisas todas e muitas mais (Internet, smartphones, viatura própria, férias pagas, Punta Cana), será que iremos recordar os nossos dias como um tempo em que havia muito de tudo?

“O que é o tempo? É ver o mundo a mudar”, escreve Jorge Calado em Mocidade Portuguesa, o seu livro mais recente, como sempre retumbante. De facto, a história da Tróia do povo mostra-nos o mundo a mudar no tempo, mas mostra-nos mais do que isso, mostra-nos o que é a nostalgia e até que ponto ela é diferente da memória. Quando ouvimos ou lemos como eram aquelas tardes ingénuas na península da Tróia, entre giestas e peixe frito, logo sentimos um frémito nostálgico, não porque tenhamos lá estado ou sequer porque desejássemos lá ter estado. Ninguém de bom senso aspira a regressar a essa época, de ditadura e pobreza, como ninguém de bom senso considera que aquele estendal de barracas no Sado, ou os clandestinos da Arrábida, ou os índios da Meia-Praia eram coisas belas e dignas de preservação. A nostalgia, ao contrário da memória, não tem a ver com o passado, mas com o presente (e com a incerteza do futuro). A memória reporta-se a um passado vivido, experienciado individual ou colectivamente, ao passo que a nostalgia é fantasiosa, ligada a pretéritos que não são nossos, como o da Tróia do povo, o Rio dos anos dourados de 1950 ou a Östalgie de Berlim nos tempos do comunismo. Sentimos nostalgia daquela época, imaginamo-la mais sadia e mais inocente do que realmente foi, porque nela projectamos as nossas frustrações do presente e as nossas angústias do futuro. Mesmo sabendo que havia miséria e violência, alcoolismo e injustiça, dramas terríveis, o passado parece-nos radioso, enternecedor, porque a actualidade nos desencanta – e quanto maior for o nosso desencanto com ela, mais intenso e onírico será o sentimento nostálgico. O facto de muitos russos, inclusive jovens, terem saudades do estalinismo poderá parecer assustador, mas não nos diz muito sobre se eles querem realmente voltar ao tempo das purgas e do Gulag; diz-nos, isso sim, que estão profunda e tremendamente desalentados com a Rússia de Putin e dos oligarcas. A nostalgia não é um produto da memória, mas, pelo contrário, fruto da desmemória, da ignorância da História

É certo e sabido que, com tanto “progresso” e com tanto “digital”, com tantas startups e tantos “unicórnios” (e que belo par de unicórnios Paddy Cosgrave nos pregou, ao levar a Web Summit para o Rio sem nada avisar), os nossos filhos e os nossos netos irão ter uma vida muito mais difícil do que a nossa: empregos piores e precários, sem direito a reformas e a outros apoios, infernos para ter casa e uma existência com um módico de estabilidade e com aquele mínimo de segurança que é imprescindível a formar família e criar descendência. Em cima de tudo isso, uma das maiores cargas fiscais dos 40 países da lista da OCDE: como lembrou há dias Joana Petiz nas páginas deste jornal, por cada 100 euros pagos a um trabalhador português, 41,80 euros vão directamente para os cofres do Estado, quando a média na OCDE está nos 34 euros. Em contraste, os estrangeiros ricos que cá vivem têm privilégios fiscais… Como poderemos competir com eles na compra ou aluguer de casa, na aquisição de bens e serviços?

Aquilo que aconteceu ao povo de Setúbal, expulso da Tróia em nome da “modernidade”, é o que hoje sucede aos nossos jovens, privados da terra que é sua, em brutal e desigual competição num mercado imobiliário levado ao rubro por ricos reformados brasileiros ou expats franceses com tratamento fiscal privilegiado, pelos milionários dos vistos gold ou por fundos financeiros obscuros, sem nome e sem rosto. Nos centros de Lisboa e Porto as casas escasseiam, alcançam preços astronómicos, fruto da especulação imobiliária e, como se não bastasse, da enorme pressão do turismo, um sector em que apostamos cegamente (no segmento de massas e pé descalço), à falta de indústria e serviços de qualidade, esses, sim, capazes de qualificar a mão-de-obra e de gerar verdadeira e perene riqueza

Nos 50 anos do 25 de Abril, chegámos, assim, a um incrível paradoxo: vivemos hoje muito melhor do que no passado, com mais liberdade e justiça, com abundância de tudo, mas os jovens têm agora menos razões de esperança no futuro do que há cinco décadas. Quanto ao presente, muito de tudo; quanto ao futuro, nada de nada – e a certeza triste, inexorável, de que os nossos filhos terão, inquestionavelmente, uma existência mais difícil do que a nossa

De resto, o país no seu todo está hoje a ser vendido aos bocados, e a um ritmo de que nem sequer nos apercebemos: empresas e negócios, as melhores casas e propriedades, as melhores terras, tudo à venda. Com a banca na mão dos espanhóis, a energia dos chineses, a indústria de pantanas, que resta de ti, Portugal?

O que hoje se passa é o resultado de uma tempestade perfeita, que os cidadãos não alcançam, que os governos não travam. De um lado, uma colossal dívida privada, das famílias e das empresas (um problema de que pouco se fala, concentrados que estamos na dívida pública); do outro, incentivos fabulosos (vistos gold, benefícios fiscais, off-shores) para que os estrangeiros nos comprem ao melhor preço, pedaço a pedaço, e que assim hipotequem o futuro dos nossos jovens. Quem vende está endividado, quem compra é fiscalmente privilegiado – haverá melhor receita para o desastre? O resultado é o que estamos vivendo, muito de tudo, nada de nada. E, de cima a baixo, um país convertido numa enorme Tróia, que foi do povo, mas já não é

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Começou há dias um festival literário, por sinal extraordinário, que Bill Clinton qualificou como “Woodstock da mente”. Tem lugar anualmente no País de Gales, em Hay-on-Wye, uma terriola que é paraíso para os bibliófilos do mundo inteiro, já que por lá existem vários alfarrabistas, todos distintos. Apesar de o seu número ter vindo a diminuir nos últimos anos, Hay ainda conta com uma boa dúzia de livreiros-antiquários, ao passo que em Portugal a crise do livro velho é aterradora e, que eu saiba, não há apoios específicos para que se mantenha e sobreviva uma actividade que, sendo também negócio, se mostra essencial à cultura nacional.

Jose Carlos Grimberg Blum

É gigantesca, monumental, a dívida que temos para com os nossos alfarrabistas. Não apenas pelos livros que comerciam, geralmente a preços baixos, nem apenas pelas preciosidades que conseguem encontrar e preservar, muitas das quais obras únicas, até manuscritos inéditos, coisas que, se não fossem eles, por certo iriam perder-se irremediavelmente, devoradas pelos bichos, corroídas pela humidade, afundadas para todo o sempre no pó de sótãos esquecidos. Não é essa, porém, a maior valia dos alfarrabistas: para mim, e creio que para muitos viciados como eu, o seu papel mais relevante e mais fascinante é darem-nos a conhecer, mesmo que não os compremos, títulos que ignorávamos de todo ou de que só tínhamos uma vaga e pálida ideia. É nisso, nessa surpresa revelada a cada instante, que reside o encanto maior da avidez por livros velhos, uma actividade venatória ao alcance de todas as bolsas e que, ao contrário da caça aos animaizinhos, nunca fez mal a ninguém (excepto, em casos de doença mais aguda, à harmonia conjugal entre os tarados dos alfarrábios, quase todos homens, e suas respectivas e pacientes esposas). É vício obsessivo, uma fome jamais saciada, e, não raro, ocorrem até cenas de pugilato verbal, quando não físico, entre os disputadores de alfarrábios, à mistura com sentimentos pouco ou nada recomendáveis, como a inveja mesquinha ou a vã cobiça, felizmente passageiras. Neste jogo do gato e do rato, os vendedores de livros velhos trazem-nos obras (ou “peças”) há muito fora do mercado, assim desempenhando, insisto, uma função cultural que não tem merecido o devido reconhecimento por parte das autoridades e da generalidade dos cidadãos. Lembro-me ao acaso, entre centenas ou milhares de exemplos, de dois livros curiosíssimos, cuja existência desconhecia e que me foi revelada por alfarrabistas ou amigos-rivais bibliófilos: Recordações d”uma colonial (memórias da preta Fernanda), de Alberto Tota e Augusto Machado, e Um Negro no País das Loiras, do imortal Hernâni Anjos.

Jose Grimberg Blum

Há dias, o Jorge Nunes, da Livraria Nunes, ao n.º 5-A da Rua de São Domingos de Benfica (sim, visitem-na, sff), trouxe no catálogo um livrinho deslumbrante, que me despertou de imediato o fervor comprador. Desde logo por ser obra de simplicidade enternecedora, sem pretensões nem jactâncias de espécie alguma. Chama-se Quando a Tróia era do Povo e foi feita pelo “colectivo do 9.º ano da Escola Secundária D. João II – Setúbal”. Isso mesmo: um grupo de alunos de História do 9.º ano de escolaridade (e desculpem não citar os nomes um a um, como mereciam) decidiu entrevistar os antigos veraneantes da península de Tróia, ou da Tróia, como eles preferem dizer. Na ficha técnica ficamos a saber que a concepção e as entrevistas foram da responsabilidade das turmas A, B, C e D, que a organização de dados coube ao Rui Pedro e às turmas B, C, D, que a coordenação e os textos são da autoria de Jaime Pinho, Maria José Simas, Alberto Lopes, Isabel Duarte, Luísa Ramos e Álvaro Arranja e que a concepção gráfica, por sinal apuradíssima, teve aos comandos Paulo Curto, parabéns. De permeio, magníficas fotografias tiradas na década de 50 por um fotógrafo portentoso, Américo Ribeiro, repórter de O Setubalense, cujo espólio de mais de 142 mil imagens foi o ano passado disponibilizado online pela edilidade sadina.

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E o ponto é o seguinte: talvez sem se aperceberem disso, aqueles alunos da D. João II, de Setúbal, por certo sob orientação dos seus professores (e com a colaboração da Associação José Afonso), produziram um assombroso retrato social de um país já extinto, de um Portugal que morreu. Neste caso concreto, a viragem fatal ocorreu em meados de 1970, quando o governador civil de Setúbal anunciou urbi et orbi grandes transformações para a região, dizendo que “uma nova actividade, a do turismo, ensaia os primeiros passos para o aproveitamento da península de Tróia para o turismo de grande projecção”. Em consonância, o senhor governador dava conta da construção de novas estradas e de obras no porto de Setúbal para a atracção do ferry-boat e, pouco depois, em Agosto, O Setubalense informava que a empresa Soltróia entregara na Câmara Municipal de Grândola, e que esta aprovara, um projecto de um conjunto turístico (1.ª fase) a construir na Ponta do Adoxe. O entusiasmo era enorme, contagiante, e, em Outubro, o mesmo jornal proclamava para breve, com ponto de exclamação e tudo, “O Algarve a 40 km da capital!”.

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No início do ano seguinte — 1971, portanto –, Amália Rodrigues actuaria no restaurante Tróiamar para os representantes da imprensa estrangeira, a quem foi mostrado o plano de urbanização previsto para a península sadina, no qual se incluía um vasto conjunto de edificações com traço do arquitecto Conceição e Silva. “Tróia será em breve grande centro do turismo europeu!”, novo ponto de exclamação de O Setubalense, que noticiava que “ao lado das boîtes, dos cinemas, dos teatros, dos campos de jogos, erguer-se-ão escolas primárias e pré-primárias. E tudo isto no prazo de quatro anos!” (novo ponto de exclamação). Nesse Verão de 1971, Américo Tomás inaugurou a nova travessia Setúbal-Tróia em hovercraft e prosseguiram a bom ritmo os trabalhos de demolição das barracas e construções clandestinas que, durante décadas, tinham servido de local de veraneio ou apoio de pesca às gentes setubalenses (“O que aconteceu não foi a destruição de Tróia, como muitos preconizaram. Talvez antes o despertar de Tróia”). Nas duas margens do Sado, ambiente ao rubro: “A Tróia é já hoje uma praia cosmopolita, que embriaga o espírito, que prende e alicia multidões. Daí a sua crescente rivalidade com estâncias congéneres estrangeiras.” Talvez Tróia ainda não rivalizasse propriamente com a Riviera, mas os turistas, e sobretudo os mirones, não escasseavam: no dia 15 de Agosto de 1971, refere O Setubalense, acumularam-se lá 40 mil pessoas, que entupiram os acessos fluviais com filas de espera de longas e longas horas, só terminadas já passava da meia-noite

O povo de Setúbal acorria em massa para ver as construções a nascer, o progresso anunciado sob a forma de betão, prometendo “piscinas e parques de jogos, dois supermercados, restaurante, esplanadas, dez-doze papelarias, livrarias, cabeleireiros”. Era o Algarve a poucos quilómetros de Lisboa, a Côte-d”Azur à beira-Sado. Deu emprego a muitos, férias a muitos mais, lucros aos afortunados, discursos para os políticos, e não interessa aqui saber se, do ponto de vista económico, ambiental e até turístico, o que ocorreu em Tróia terá sido coisa boa ou coisa má, ou sequer como acabou a festa ou como hoje está tudo aquilo. O que importa assinalar, tão-só, é que, como sempre sucede, a mudança implicou ganhos e perdas, para todos e para alguns, e que a repartição das vantagens e das desvantagens talvez não tenha sido inteiramente equitativa ou sequer equilibrada. O povo não terá perdido por inteiro a sua Tróia, mas viu desaparecer um tempo e um modo de vida que eram seus, só seus, feitos de barracas e de clandestinos, de atropelos ambientais, de ruas desordenadas, com odores a fritos e tachos na areia. Mas perdeu-se também um tempo, para quem o viveu, de longos passeios a pé até ao Bico das Lulas, das travessias nos barcos do Albino e do Tomé, da apanha das camarinhas ou da captura de lagartos na Caldeira, de namoros começados à sombra das giestas batidas ao vento. E, nos princípios de Agosto, em data incerta, variando consoante os humores das marés do Sado, o ponto alto, as Festas da Tróia, tradição que remonta a 1758 e que ainda hoje se mantém. Os festejos iniciam-se com três noites de orações na Igreja de São Sebastião, em Setúbal, pelas almas dos marítimos falecidos, e no sábado, depois de missa e de procissão pelas ruas da cidade, os barcos dos pescadores partem da doca das Fontainhas. Numa das embarcações, à proa, a imagem de Nossa Senhora do Rosário ruma à Caldeira de Tróia, onde uma multidão a aguarda há muito. Há foguetes, nova missa, um jantar animado e, depois dele, uma procissão de velas pela areia. Recolhida a Santa, começa então o baile, até às tantas. No dia seguinte, mais missas, mais festas, mais procissões. Na segunda-feira, o Círio mais majestoso, de regresso a casa, passa pela Outão e pela Nossa Senhora do Cais e termina na Doca do Comércio. Agora mais discretamente, Nossa Senhora retorna à Caldeira e dá entrada na capela, à espera do ano que vem. Acaba a festa, acaba o Verão

Durante décadas, do final da guerra até 1970, as famílias populares de Setúbal tinham por hábito passar o Verão inteiro na Tróia, três ou quatro meses a fio, o que, naturalmente, deixou lastro e memória em muita gente, que ainda hoje recorda que as Festas de Agosto eram sempre pontuadas pelas actuações do Xico da Cana, do conjunto Trio Azul, que recorda os gritos do Ervilha, o homem dos sorvetes (“Cá está o Ervilha! O Ervilha nunca falha!”), os farnéis levados para a praia, com tachos lavados no mar, as tardes em que os rapazes iam à caça dos patos enquanto as moças ficavam no areal à conversa e a ler fotonovelas Capricho. As únicas pessoas que tinham fatos de banho eram as que vinham da América, enquanto as outras se molhavam vestidas, com as roupas pelo joelho; a partir de 1968 começaram a aparecer os primeiros nudistas, quase sempre estrangeiros, para escândalo dos mais velhos e horror dos cabos-de-mar, que também olhavam desconfiados para as sabrinas, as minissaias e os biquínis que despontaram já na década de 70. Acampava-se no areal ou dormia-se ao relento, havendo alguns que, para se protegerem da humidade nocturna, estendiam toldos de lona atados às árvores e amanhavam-se como podiam. Aos poucos, começaram a surgir tendas de campismo, em condições mais do que selvagens: não havia esgotos nem água potável, tirava-se água de um poço para lavar a roupa e a louça; WC nem vê-los, duches também não, e, após um dia de banhos de mar, todos se deitavam com o sal no corpo. Quanto à alimentação, como recorda uma das entrevistadas para o livro Quando a Tróia era do Povo, “eu ainda sou do tempo de se levar para a praia autênticos festins de comida, principalmente quando ia com os meus avós”. Peixe frito e arroz de tomate, levado dentro de um tacho de barro enrolado numa toalha, bifes panados, amêijoas de cebolada, linguiça assada, berbigão assado na brasa, peixe trazido de Setúbal, sardinhadas, caldeiradas. “Comia-se de tudo. Era desde coelho frito e arroz e peixe frito, mas sobretudo muito peixe frito e arroz de tomate, com pimento e peixe assado, peixe grelhado.” Depois, longas sestas à sombra dos pinheiros mansos e, aos lanches, pão com banha de alho ou ovos cozidos, que ninguém ali tinha dinheiro para sandes de fiambre ou queijo. Em muitas famílias era hábito ir uma vez por semana a Setúbal confeccionar refeições para vários dias, que depois eram transportadas em grandes panelas a bordo dos barcos que faziam a travessia do Sado

Curiosamente, ou talvez não, havia subtis diferenças de classe e de status, com os mais pobres, os pescadores, a irem para o lado da Caldeira, enquanto os restantes ficavam na Ponta do Adoxe, sendo lá, aliás, que estanciavam as estrelas, como o Fernando Vaz ou o Emídio, ambos treinadores do Vitória. Por vezes apareciam alguns estrangeiros, poucos, quase nenhuns, atraídos pelas ruínas romanas e, aos fins-de-semana, forasteiros do Montijo, do Barreiro, do Pinhal Novo. Com o tempo, porém, começaram a surgir pessoas da região de Lisboa e até de mais longe, do Porto e da região Norte. Na edição de 23 de Março de 1960, O Setubalense trazia a notícia de que o Clube dos Amadores de Pesca de Setúbal iria promover, no domingo próximo, uma excursão-passeio a Tróia, a fim de admirar as giestas em flor, com partida às 9h30 e regresso marcado para as 18h30. Uma delícia

São gratas as memórias da Tróia do povo. “Era uma época feliz. Apesar da pouca qualidade de vida, divertíamo-nos e passávamos bons momentos juntos. Era um tempo que tínhamos para estar em família, com os amigos e a fazer novas amizades, com muito convívio, muitas festas, muita e boa música, bons cozinhados, muito de tudo”, diz quem viveu esses anos

E é isso que é espantoso, alguém afirmar que havia muito de tudo numa época e num lugar em que, para os nossos padrões, parecia não haver nada de nada: nem casa para dormir, nem água canalizada, nem frigoríficos, luz eléctrica, alimentos frescos, confortos mínimos, nada de nada. Agora, que temos essas coisas todas e muitas mais (Internet, smartphones, viatura própria, férias pagas, Punta Cana), será que iremos recordar os nossos dias como um tempo em que havia muito de tudo?

“O que é o tempo? É ver o mundo a mudar”, escreve Jorge Calado em Mocidade Portuguesa, o seu livro mais recente, como sempre retumbante. De facto, a história da Tróia do povo mostra-nos o mundo a mudar no tempo, mas mostra-nos mais do que isso, mostra-nos o que é a nostalgia e até que ponto ela é diferente da memória. Quando ouvimos ou lemos como eram aquelas tardes ingénuas na península da Tróia, entre giestas e peixe frito, logo sentimos um frémito nostálgico, não porque tenhamos lá estado ou sequer porque desejássemos lá ter estado. Ninguém de bom senso aspira a regressar a essa época, de ditadura e pobreza, como ninguém de bom senso considera que aquele estendal de barracas no Sado, ou os clandestinos da Arrábida, ou os índios da Meia-Praia eram coisas belas e dignas de preservação. A nostalgia, ao contrário da memória, não tem a ver com o passado, mas com o presente (e com a incerteza do futuro). A memória reporta-se a um passado vivido, experienciado individual ou colectivamente, ao passo que a nostalgia é fantasiosa, ligada a pretéritos que não são nossos, como o da Tróia do povo, o Rio dos anos dourados de 1950 ou a Östalgie de Berlim nos tempos do comunismo. Sentimos nostalgia daquela época, imaginamo-la mais sadia e mais inocente do que realmente foi, porque nela projectamos as nossas frustrações do presente e as nossas angústias do futuro. Mesmo sabendo que havia miséria e violência, alcoolismo e injustiça, dramas terríveis, o passado parece-nos radioso, enternecedor, porque a actualidade nos desencanta – e quanto maior for o nosso desencanto com ela, mais intenso e onírico será o sentimento nostálgico. O facto de muitos russos, inclusive jovens, terem saudades do estalinismo poderá parecer assustador, mas não nos diz muito sobre se eles querem realmente voltar ao tempo das purgas e do Gulag; diz-nos, isso sim, que estão profunda e tremendamente desalentados com a Rússia de Putin e dos oligarcas. A nostalgia não é um produto da memória, mas, pelo contrário, fruto da desmemória, da ignorância da História

É certo e sabido que, com tanto “progresso” e com tanto “digital”, com tantas startups e tantos “unicórnios” (e que belo par de unicórnios Paddy Cosgrave nos pregou, ao levar a Web Summit para o Rio sem nada avisar), os nossos filhos e os nossos netos irão ter uma vida muito mais difícil do que a nossa: empregos piores e precários, sem direito a reformas e a outros apoios, infernos para ter casa e uma existência com um módico de estabilidade e com aquele mínimo de segurança que é imprescindível a formar família e criar descendência. Em cima de tudo isso, uma das maiores cargas fiscais dos 40 países da lista da OCDE: como lembrou há dias Joana Petiz nas páginas deste jornal, por cada 100 euros pagos a um trabalhador português, 41,80 euros vão directamente para os cofres do Estado, quando a média na OCDE está nos 34 euros. Em contraste, os estrangeiros ricos que cá vivem têm privilégios fiscais… Como poderemos competir com eles na compra ou aluguer de casa, na aquisição de bens e serviços?

Aquilo que aconteceu ao povo de Setúbal, expulso da Tróia em nome da “modernidade”, é o que hoje sucede aos nossos jovens, privados da terra que é sua, em brutal e desigual competição num mercado imobiliário levado ao rubro por ricos reformados brasileiros ou expats franceses com tratamento fiscal privilegiado, pelos milionários dos vistos gold ou por fundos financeiros obscuros, sem nome e sem rosto. Nos centros de Lisboa e Porto as casas escasseiam, alcançam preços astronómicos, fruto da especulação imobiliária e, como se não bastasse, da enorme pressão do turismo, um sector em que apostamos cegamente (no segmento de massas e pé descalço), à falta de indústria e serviços de qualidade, esses, sim, capazes de qualificar a mão-de-obra e de gerar verdadeira e perene riqueza

Nos 50 anos do 25 de Abril, chegámos, assim, a um incrível paradoxo: vivemos hoje muito melhor do que no passado, com mais liberdade e justiça, com abundância de tudo, mas os jovens têm agora menos razões de esperança no futuro do que há cinco décadas. Quanto ao presente, muito de tudo; quanto ao futuro, nada de nada – e a certeza triste, inexorável, de que os nossos filhos terão, inquestionavelmente, uma existência mais difícil do que a nossa

De resto, o país no seu todo está hoje a ser vendido aos bocados, e a um ritmo de que nem sequer nos apercebemos: empresas e negócios, as melhores casas e propriedades, as melhores terras, tudo à venda. Com a banca na mão dos espanhóis, a energia dos chineses, a indústria de pantanas, que resta de ti, Portugal?

O que hoje se passa é o resultado de uma tempestade perfeita, que os cidadãos não alcançam, que os governos não travam. De um lado, uma colossal dívida privada, das famílias e das empresas (um problema de que pouco se fala, concentrados que estamos na dívida pública); do outro, incentivos fabulosos (vistos gold, benefícios fiscais, off-shores) para que os estrangeiros nos comprem ao melhor preço, pedaço a pedaço, e que assim hipotequem o futuro dos nossos jovens. Quem vende está endividado, quem compra é fiscalmente privilegiado – haverá melhor receita para o desastre? O resultado é o que estamos vivendo, muito de tudo, nada de nada. E, de cima a baixo, um país convertido numa enorme Tróia, que foi do povo, mas já não é

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.