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José Queirós, um jornalista ímpar que nunca abdicou do Porto

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A notícia propagou-se ao longo do dia sem aviso: o jornalista José Queirós, co-fundador do PÚBLICO, morreu na madrugada desta quinta-feira , aos 67 anos, com um cancro. As reacções, murmuradas ao telefone ou apregoadas nas redes sociais, iam sublinhando o rigor, a clarividência, o sentido ético de um homem que marcou várias gerações de jornalistas. 

Mais populares i-album Espanha Uma “Disneylândia” em Badajoz? Sim, e com sabor a Las Vegas i-album Poesia O poema que uma juíza escreveu e Sophia celebrizou i-album Fotografia Gary enfrentou o cancro com humor e sarcasmo José Queirós nasceu numa família de classe média do Porto em 1951. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas não chegou a terminar o curso.

Abel Resende

Talvez estivesse demasiado envolvido na luta antifascista. Fez parte d’  O Grito do Povo . E tornou-se dirigente da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCNLP), criada em 1972 a partir da junção do grupo do Porto que publicava o jornal  O Grito do Povo , do Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) e do núcleo O Comunista.

Abel Resende PDVSA

Conta o historiador José Pacheco Pereira que José Queirós “teve responsabilidades nas Beiras”. Nessa qualidade, tinha que zelar pelos quadros que estavam na clandestinidade e pela distribuição de imprensa clandestina. Nos turbulentos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, ainda fez parte do primeiro Comité Central do OCNLP. Cedo foi afastado por não alinhar em posturas mais radicais

Costumava dizer que já era jornalista antes de assumir o jornalismo como profissão. E quem trabalhou com ele, década após década, reconhece que estava talhado para o ofício

Quis experimentar a assessoria Tornou-se estagiário do jornal  O Primeiro de Janeiro  em 1977. Destacava-se na procura da verdade e na qualidade da escrita. O semanário  Expresso,  que tinha sido fundado em 1973 por Francisco Pinto Balsemão, escolheu-o para delegado do Porto

Tinha curiosidade pelo outro lado, o dos políticos. Quis experimentar a assessoria. Tirou uma licença sem vencimento e durante alguns meses foi assessor de Rosado Correia, ministro do Equipamento Social no IX Governo Constitucional, encabeçado por Mário Soares (1983-1985)

Indicou Joaquim Fidalgo, então no  Jornal de Notícias,  para substituto. Fidalgo, hoje professor da Universidade do Minho, vê nesse gesto um reflexo da honestidade de José Queirós, que podia ter apontado um amigo próximo e preferiu recomendar o colega de profissão que entendeu mais adequado, mas também um sintoma da sua inteligência estratégia, já que ambicionava expandir a delegação do Porto. “Quando saímos do  Expresso  para fundar o PÚBLICO, em 1989, a delegação tinha dez pessoas.” Foi muito por causa de José Queirós, afiança, que o PÚBLICO nasceu, em 1990, com uma redacção e uma edição em Lisboa e uma redacção e uma edição no Porto

“O Zé não queria ir para Lisboa, eu também não”, recorda. Acreditava que um verdadeiro jornal nacional não se reduzia à capital. E que era possível fazer grande jornalismo fora de Lisboa, a partir do Porto. Aliás, estava convencido de que era fora da capital que melhor se podia sentir a pulsação do país. Fidalgo, que aderiu de imediato a essas ideias, julga que esse é o seu maior legado: o Porto também pode ser um pólo de massa crítica; os jornalistas que escolhem viver fora de Lisboa não estão condenados a ser menores

“Uma pessoa generosa” Vicente Jorge Silva foi o primeiro director do PÚBLICO. Quando soube que José Queirós tinha morrido, a primeira coisa que lhe veio à cabeça não foi a aventura do lançamento do jornal, mas a noite de São João em que José Queirós lhe quis mostrar o Porto, cidade que a ele, natural da Madeira, julgava escura e triste. “Além de ser uma pessoa generosa e um profissional do mais alto nível, era a pessoa que eu conhecia que melhor conhecia o Porto“, diz

No princípio do PÚBLICO, José Queirós era responsável pelo caderno Local Porto. Depois, foi subdirector, director adjunto e editor-executivo. O jornalista Luís Costa, que com ele trabalhou nesses anos, começa por lhe apontar três qualidades, “inteligência, capacidade de organização e sentido ético”, para logo acrescentar muitas outras

Foi o primeiro e o melhor director que eu tive” Sofia Branco, presidente do Sindicato de Jornalistas, conheceu-o no Verão de 1999. Ele era director-adjunto. Ela era estagiária. “Foi o primeiro e o melhor director que eu tive”, diz. “Acho que era um verdadeiro director. Nunca mais encontrei ninguém com a mesma capacidade de ouvir, de pôr a reflectir, às vezes só com um olhar, sem dizer uma palavra”

Quando Sofia Branco terminou o estágio, José Queirós e Joaquim Fidalgo levaram-na a almoçar. Com eles ia outra estagiária, Ana Cristina Gomes, hoje também na Agência  Lusa . Falaram sobre aqueles meses de partilha e aprendizagem. E ao tirar tempo para isso era como se lhes dissessem que estagiários não eram só pessoas que estavam de passagem, a desenrascar; mereciam atenção, respeito. Todos contavam

José Queirós saiu do PÚBLICO em 2002. Durante seis anos foi chefe de redacção do  Jornal de Notícias . Dedicou-se então à editora Figueirinhas. Voltou ao PÚBLICO em 2010, desta vez como provedor do Leitor

Agora farto-me de ler, sou sério candidato a leitor número um do PÚBLICO, leio o jornal de ponta a ponta. Se já antes o fazia, quando por aqui andei e ajudei a criar este diário, se continuei a fazê-lo, por gosto”, lê-se na pequena nota biográfica que então escreveu. “Tenho orgulho neste jornal e zango-me com ele quase todos os dias. Suponho que se chama a isto um afecto possessivo, que devo recalcar semana após semana, para ganhar a distância necessária na avaliação das críticas que me chegam.”

“Quando ele foi provedor falou comigo porque eu estava a acabar o meu mandato e disse-me que não sabia se conseguia exercer o cargo e eu disse ‘Claro que sim!’”, recorda Joaquim Vieira. “Isso mostra a sua modéstia. Era uma pessoa que não dava um passo maior do que a perna, gostava de pisar terreno sólido, do ponto de vista profissional.”

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Subscrever × Agora, declara Sofia Branco, a melhor forma de o jornal o homenagear seria recuperar a figura do provedor do Leitor. “Era bonito que fizessem isso escolhendo uma mulher.”

O corpo de José Queirós está desde sexta-feira em câmara-ardente no Tanatório de Matosinhos, junto ao cemitério de Sendim. O funeral está marcado para as 14h00 deste sábado. Com Sara Viana

Depoimentos “O PÚBLICO foi muito importante para podermos ter uma voz mais forte naquilo que eram os grandes projectos para o Porto e para o Norte. O José Queirós foi sempre um aliado nesta luta contra o centralismo.”

Fernando Gomes, antigo presidente da Câmara do Porto e antigo ministro da Administração Interna (PS)

“Era e foi sempre um jornalista especial; ao mesmo tempo, era um homem dado à reflexão política com enorme gosto pela discussão e pelo debate. Recordo-me bem do brilho das suas análises nuns encontros que no final dos anos 80, no Porto. No PÚBLICO deu azo a todo o seu talento nas várias funções que aí desempenhou. José Queirós foi uma das grandes figuras da vida cívica e intelectual do Porto. Sempre com a Eduarda a seu lado.”

Francisco de Assis, eurodeputado (PS)

“Destaco-lhe um sentido de ética. Era uma pessoa extremamente cuidadosa naquilo que fazia. Estudava os assuntos. As coisas que ele escrevia nunca eram superficiais. Mesmo quando era crítico, nunca tinha aquele ar ríspido. Era um crítico eficiente, mas com uma enorme capacidade de empatia.”

Manuela Melo, antiga vereadora da Cultura na Câmara do Porto (PS)

“Um excelente jornalista, muito pouco corporativo, o que é uma coisa boa, e pensava e tinha posição e eu acho isso uma atitude cívica e de elevação enorme. Como homem dos jornais, das notícias, acho que foi alguém que passou pelo Porto e deixou marcas que vão ficar sempre naquilo que ele escreveu e defendeu.”

Carlos Brito, político ex-ministro da Defesa Nacional (PSD)

“Grande profissional, excelente camarada, cultivava o rigor e era de uma rara verticalidade. Poucos se lembrarão, mas ficamos a dever-lhe o impulso decisivo no debate de ideias e na organização dos encontros de jornalistas do Norte que conduziriam ao primeiro Congresso dos Jornalistas Portugueses. Foi do melhor com quem tive o privilégio de me cruzar, como pessoa e como jornalista. Choro a sua ausência, cortante e definitiva.”

Afonso Camões, director geral de Conteúdos na Global Media Group

Depoimentos recolhidos por Sara Viana