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A crise política só deu 4 minutos a Pedro Marques

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O debate a seis deu para medir a temperatura às relações entre os partidos, depois da ameaça de demissão de António Costa. Estão assim:

1. Pedro Marques usou a crise política, mas só a dirigiu contra a direita. Depois de Nuno Melo ter voltado a apontar o dedo às ligações PS-Sócrates (logo à primeira oportunidade), o candidato socialista acusou PSD e CDS (“especialmente o PSD“) de começarem a falar de Sócrates “quando as coisas correm mal”.

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A acusação ainda passou em “prime-time” televisivo e foi direta: “Como é que podem vir a falar sobre responsabilidade orçamental com essa visão infantil sobre a crise de 2011, na semana em que lançam uma bomba orçamental – para depois recuarem? O que sei é que nesta semana que passou – e por isso é que devem estar tão nervosos – a credibilidade do PSD foi pelo rio abaixo, com esta vontade de ganhar a todo o custo”.

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O previsível ataque socialista teve dois minutos de tempo de antena. E só teve mais dois porque Nuno Melo lhe respondeu. Primeiro dizendo que António Costa “ameaçou que se demitia porque acha que Pedro Marques não é um candidato forte”. E logo depois mudando de assunto.

2. Nuno Melo foi à ferrovia. Outra vez com uma fotografia (no debate da SIC era uma de Sócrates, lá está), o candidato do CDS atacou o ex-ministro de Costa com os atrasos no investimento na ferrovia. Disse ter uma resposta oficial da Comissão Europeia que, alegadamente, contraria a versão de Pedro Marques sobre o dinheiro europeu efectivamente executado: 25% e não 40%, como alega o socialista. Foi o suficiente para discorrer sobre outras áreas com problemas de investimento: agricultura, mar, SNS, etc. Marques ainda tentou responder (que 25% é o já executado, 40% é o que já está em execução), mas só o conseguiu mais tarde. E sem ajuda. Isto porque…

3. O PCP também entrou ao ataque. João Ferreira foi muito mais agressivo do que tinha sido no primeiro debate e fez vários ataques em que juntou o PS à direita. Dito de outra forma: acusou os socialistas de serem cúmplices da direita, em Bruxelas, na abertura de portas à privatização da Segurança Social, de aumentos na idade de reforma, de desinvestimento na ferrovia e SNS, de cortes na agricultura e pescas, de cortes em fundos europeus, de apoiar o Tratado que quase permitia aplicar sanções a Portugal. Fê-lo em cada intervenção a que teve direito, mostrando que os comunistas estão mesmo a todo o vapor nesta campanha, quase ignorando neste debate a solução governativa que têm em conjunto com o PS.

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De resto, o registo de João Ferreira foi tão duro que até com Marisa Matias, a candidata do Bloco, se pegou – isto depois de ter listado todos os números da sua prestação no Parlamento Europeu e da bloquista ter ironizado (“Há quem trabalhe para as estatísticas e quem trabalhe para melhorar a vida das pessoas”).

4. A direita também guerrilha. Prova disso? A intervenção final de Nuno Melo, que, para além do ataque a Pedro Marques (quarta referência a José Sócrates), também apanhou em cheio Paulo Rangel: “O CDS é a única escolha possível para quem é de direita. Porque é um partido que não faz acordos agora com o PS – e que não viabilizará governos do PS”.

5. Mas Rangel também foi a Sócrates. De resto, foi a sua fuga para a provocação inicial de Pedro Marques, acerca da crise política dos professores: “Que autoridade moral tem o PS? Para além da bancarrota, quando – quer queira quer não – depois de ter estado seis anos com José Sócrates nunca fez a sua retratação? Estamos à espera que a faça um dia.”

Em breves 30 segundos de resposta, Rangel usou as sondagens em seu proveito (“Deve estar muito nervoso, obcecado com o PSD, e nós sabemos porquê”), e também as negociações do próximo quadro comunitário de apoio, feitas antes por Pedro Marques: “Como é que pode defender um estado social e estar a defender um corte de 1400 milhões de euros na política social?”

O socialista protestou (“Não é verdade” ou “é desonestidade intelectual”), mas a verdade é que o debate deixou logo a crise doméstica – mostrando que Pedro Marques continua mais à defesa do que ao ataque, muito pelo facto de ter sido ministro das infra-estruturas e fundos comunitários.

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6. Marisa Matias bem tentou. “Sinto-me envergonhada, não é por falar mais alto que se tem razão”, disse a candidata do Bloco, no meio das constantes interrupções dos seus adversários. Até do que lhe era mais próximo, o eurodeputado comunista: “Oh João Ferreira, por favor. Posso falar, obrigada João Ferreira“. Mas manifestamente foi a que menos conseguiu falar durante o debate – embora a que tenha tentado mais falar sobre questões europeias. Dado importante: ao contrário do comunista, Marisa não teve qualquer receio de se afirmar europeísta: “Não há outra forma de ser europeísta do que ser crítica da UE”.

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7. Marinho e Pinto ouviu-se menos, mas distanciou-se mais. Sugeriu que “tem de haver mais autenticidade” em Bruxelas, criticando o “espetáculo político” da crise dos professores e do próprio debate; vincou não estar “vinculado a nenhuma direcção partidária”. E atacando fortemente o PS: “Afastou há cinco anos o melhor eurodeputado, Vital Moreira, porque é um apetecido pelas clientelas. Este ano saiu a dra. Maria João Rodrigues e também um deputado dos Açores, Ricardo Serrão Santos, que foi corrido para dar lugar a um muchacho do dr Carlos César. E Pedro Marques aceita, vindo falar dos professores.”

8. No fim de 90 minutos, tempo de um jogo de futebol, o que sobressai é um debate cheio, mesmo cheio, de interrupções mútuas, de acusações pessoais e políticas permanentes, de muito jogo político e muito pouca discussão europeia. Seu a seu dono: nisso, o silêncio de Marisa Matias destacou-se. Às vezes é de ouro