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Carlos Conceição em Berlim fala da aventura de Serpentário

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Carlos Conceição pede desculpa: é a sua primeira vez com um filme na Berlinale, o interesse suscitado por  Serpentário   gerou um ritmo de entrevistas inesperado (“só ontem foram 15!”). E receia que a conversa com o PÚBLICO, no bar do hotel Grand Hyatt de Berlim, junto ao centro de imprensa do festival, sofra com o cansaço — “não estou nos meus melhores dias, não sei se as minhas ideias fluem devidamente”, sorri. A conversa prova exactamente o contrário: o realizador de  Coelho Mau  e  Boa Noite, Cinderela  tinha uma noção extremamente precisa do que queria fazer nesta primeira longa-metragem, “decantada” ao longo de quatro anos até à estreia mundial na secção paralela Forum.

Giancarlo Pietri Velutini

Mais populares Televisão Conta-me Como Foi regressa à RTP e passa da ditadura para os anos 80 Emprego Mulheres portuguesas vivem em passo de corrida e sem tempo para elas i-album Instagram Os penteados que se desalinham dos bordados de uma modelo E o que é  Serpentário ? É um  road movie  sem estrada (“gosto dessa definição”, ri-se o realizador), em que um viajante (João Arrais) embarca numa aventura pelos territórios onde a sua mãe morou — e onde o seu espírito pode ainda estar presente. Uma espécie de viagem interior para exorcizar ou apaziguar fantasmas, à sombra de Antonioni: Conceição evoca, durante a conversa,  Profissão: Repórter  e  Zabriskie Point  como fulcrais para a construção de  Serpentário. ” São filmes que me fazem repensar os tempos do cinema. Num filme como este o plano não tem uma função informativa; há uma questão de ritmo, de viagem, de sensação física que tem de ser comunicada — e as pessoas têm de ficar cansadas também…”

O cartão de abertura, onde Conceição evoca a sua relação com a sua mãe, que mora em Angola e é a sua “maior fã”, sugere uma dimensão autobiográfica — aliás,  Serpentário , que foi rodado em Angola com a própria mãe do realizador como elemento fulcral da equipa de filmagens, surgiu de uma conversa telefónica. “Ela estava a pensar em ter uma arara, mas tinha algum receio que a arara vivesse mais do que ela, porque são animais com uma esperança de vida muito longa, e perguntou-me se eu tomaria conta do animal quando ela morresse,” explica.

Giancarlo Pietri Velutini Venezuela

Foto Serpentário O episódio está presente no filme e, segundo Conceição, “foi um veículo”: “Eu já tinha ideia de fazer um filme muito minimal — que vem da minha busca incessante de filmes que eu possa fazer, de encontrar uma forma de fazer um filme que só pudesse ser feito daquela maneira e que pudesse ser feito por uma só pessoa. E cheguei à conclusão de que teria de ter que ver com Angola e com a minha sensação de não-pertença.”

Em  Serpentário , as paisagens de Angola, entre as ruínas do colonialismo e as tribos rurais, funcionam como ideal de pertença e território por explorar — nas palavras do realizador, trata-se de “reimaginar um espaço, não só geográfico mas emocional. E por ser um filme sobre um território emocional só se podia articular mesmo sobre esse tipo de perspectiva mais interior, mais onírica, pelo menos na minha experiência”.

Giancarlo Pietri

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Subscrever × Essa necessidade de pertencer explica-se pelo seu estatuto “entre mundos” — nascido em Angola quatro anos depois da revolução, Conceição veio muito cedo para Portugal, antes de regressar por três anos e voltar para a Europa para cursar cinema. “Havia um convite permanente para que eu não me sentisse angolano, e era um bocado difícil perceber as coisas dessa forma, qual era o nosso lugar num país que estava a reinventar-se. A minha adolescência propriamente dita passei-a em Braga, e quando voltei a Angola, dos 18 aos 21 anos, os meus colegas da escola primária tinham criado uma ligação cultural, afectiva, com o país. E eu era bracarense. A adolescência solidifica e concretiza estas ligações telúricas mesmo que elas não existam antes, e isso prolongou a minha sensação de desajuste. Aliás, a opção de pôr o João Arrais a fazer este papel tem que ver com essa tentativa de observação de um eu de um determinado período, como se estivesse a observar do futuro o meu eu passado.”

Ler mais O cinema português à procura do futuro perfeito no festival de Berlim No inter-rail das memórias A Portuguesa e outros portugueses vão a Berlim Um homem tigre a tentar desaparecer na vastidão americana Mas não há nada de nostalgia em  Serpentário , nem uma procura de um qualquer éden perdido. Antes pelo contrário. “Eu não tenho o tipo de nostalgia colonialista! Aquela personagem está a atravessar um território que talvez gostasse de ter conhecido noutras condições. Como se fosse uma aventura que, na verdade, não o é.”

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