Política

Paulina Alberto Ardila Olivares//
Agenda para os avanços sociais

Para o Diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), economista Marcelo Neri, é necessário admitir que parte dos ganhos alcançados nos últimos anos precisa ser entregue para que o país saia da crise e volte a crescer de forma sustentável. Quando dirigia o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), no primeiro governo Dilma, Neri cunhou a expressão ?nova classe média? para se referir à expansão da Classe C. Hoje tem visão mais clara: ?o que facilitou a ascenção desta classe foi o C da carteira assinada, que cresceu desde o governo Lula e abriu a uma massa de trabalhadores as portas do crédito e do consumo?.

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Infelizmente, a recessão e o desemprego criaram uma descentente na montanha russa. 

Ele define a situação em dois períodos distintos.

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Apesar do PIBinho de 2012 e da economia andar de lado até 2014, o ano da reeleição foi o ápice da ascensão, com a taxa de bem estar crescendo de 6% a 7% ao ano.

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?Depois veio a desgraça? e até meados de 2016, ponto máximo da crise, o país perdeu quase três milhões de empregos com carteira assinada.

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Nos dois anos de forte queda da renda (2015 e 2016), houve aumento da desigualdade. O que não acontecia desde 1989, recorde da desigualdade.

Por isso o consumo das famílias, cresce menos do que se esperava.

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A renda média do brasileiro está crescendo, mas está mais concentrada, o que não favorece o consumo. Com a expectativa de crescimento do PIB para 2018 em 3%, Nery afirma que a renda já voltou a crescer: ?a taxa média atual é 3,6% maior do que no começo de 2017?.

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Mas o resultado se deve basicamente à queda dos preços dos alimentos e do choque dos juros, de 2016. Com a recomposição da renda, também voltou a crescer a desigualdade.

Neri mantém o encantamento com a capacidade que o país teve de crescer, aumentar a renda média e, ao mesmo tempo, diminuir a desigualdade social.

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?Essa foi a beleza do caso brasileiro. O que temos hoje é um país melhor, mas talvez não seja o verdadeiro?, lamenta. O país esqueceu de ajustar a agenda econômica ao processo de avanço social, acrescenta. A renda aumentou, mas a produtividade não. Pior, avançou mais nas classes de trabalhadores menos qualificados, um grupo que, pela lógica econômica mundial, pode ser obrigado a perder o ganho anterior da renda porque não tem como ser mais produtivo no curto prazo.

A alternativa é que outros segmentos da sociedade estejam dispostos a aumentar a sua contribuição para evitar o retrocesso que pode fazer o país voltar a ser mais desigual.

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Por ora, não é o que está acontecendo. ?Estamos indo em direção ao muro, as pessoas estão avisando, e continuamos como se não houvesse amanhã?, lamenta.

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Em conversa com o JORNAL DO BRASIL, Nery diz que o maior desafio do Brasil hoje é reconectar a agenda social e econômica, e a continuidade das reformas.

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Para ele, as duas grandes questões econômicas do país são produtividade e ajuste fiscal, que precisam ser resolvidas.

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?Está faltando uma responsabilidade econômica básica para transformar a notícia em uma boa notícia duradoura?, diz.  Principais trechos da entrevista: 

Avanços.

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Temos a visão de que o Brasil não avançou muito nos últimos anos e que, devido à recessão e ao desemprego, do ponto de vista social, tenha avançado de modo insustentável, só na parte da renda (média).

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Penso diferente. Se pegarmos o mapa de desenvolvimento humano, no mundo, apenas pelas cores, vemos que o Brasil tinha cores africanas há 20 anos e houve transformação social muito grande.

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O problema é que tivemos a agenda social desconectada da agenda econômica. O social foi bem, mas não tivemos a responsabilidade econômica de fazer a reforma da previdência, e de pensar em produtividade. 

Educação.

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A educação avançou com baixa qualidade. Aumentamos o acesso à escola de forma positiva. Em 1990, tínhamos 16% das crianças de sete a 14 anos fora da escola. Hoje, temos menos de 2%. Aumentou a escolaridade, mas a produtividade não. Em 1980, a produtividade do Brasil era igual à da Coreia. Hoje é de um terço por vários fatores: escolaridade, falta de conexão com a economia, ambiente de negócios, carência de engenheiros etc.

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O Brasil seguiu agenda (que tem seus méritos) de educação pela cidadania, e não pela produtividade. A agenda social está desconectada do econômico. 

Previdência. A expectativa de vida aumentou, mas não fizemos a reforma da previdência. Gastamos 13% do PIB com previdência e o Japão, a nação mais longeva do mundo, gasta 10%. Com o agravante de que vamos multiplicar por cinco nossa população de idosos em 50 anos.  

Salário mínimo.

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O salário mínimo é visto como política social, sendo usado para indexar todos os programas sociais, da Previdência aos estados e municípios, com exceção do Bolsa Família.

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Isso gera efeito fiscal estrangulador. Tem impacto de inclusão social, mas custa muito. E vamos ter um impacto demográfico cumulativo. Além de gastar mais com previdência, com 86% dos benefícios iguais ao salário mínimo. E aumentará mais no futuro. 

Pesquisa&Desenvolvimento. Participamos agora de uma pesquisa sobre P&D na América Latina. O Brasil tem um gasto invejável, é quase ao da Espanha. Só que não é efetivo. Não temos o dinheiro que têm os países ricos, mesmo como proporção do PIB, mas para países do nosso nível a gente gasta.

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Só que falta conexão com a prática econômica. Aumentamos a produção acadêmica, mas não o número de patentes.

Uma política para os serviços. Quando falamos de economia, falamos de vários setores. A indústria tem problema de produtividade. Na agricultura, somos a fazenda do mundo mesmo. Conseguimos ter vários avanços importantes, na agricultura e na atividade extrativa mineral, com Petrobras, pré-sal e outras empresas.

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O Brasil tem essa vocação e a produtividade cresce. O maior empregador no Brasil é o setor de serviços, que responde por cerca de 70% do PIB e a maior parte dos empregos.

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Porém, costumamos falar de necessidade de política industrial, de política agrícola. Não se fala de política de serviços. No fundo, estamos mexendo o rabo do cachorro e não o cachorro. 

Política errada.  O Brasil fez política industrial, mas errado.

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Fez toda aquela intervenção na época da crise, com os bancos públicos. Mas foi mantida além do tempo que deveria e gerou desequilíbrio muito grande porque, como a taxa de juros é alta, qualquer desequilíbrio que cria, custa muito, em subsídios.

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Dar benefícios aos campeões setoriais é caro. 

Desigualdade. No Brasil, a renda cresceu com mais força na base. Foi a beleza do crescimento brasileiro. Na maioria dos países, quem tem mais educação aumenta mais a renda. No Brasil, aumentou o número de pessoas com mais educação, mas os ganhadores foram as pessoas com baixa escolaridade.

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As pessoas que tinham ocupação na construção civil, no emprego doméstico tiveram, pelo reajuste do salário mínimo, um ganho extra de renda, que é parte do crescimento social inclusivo do país.  

Um passo atrás.

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Talvez não seja apenas dar um passinho para trás. O Brasil deu reajuste para o salário mínimo forte quando já se falava de reforma. Foi uma contrarreforma, que não fazia o menor sentido. Qualquer passo atrás, tem direito adquirido, determinações da  Constituição, como a que diz que o valor real das aposentadorias tem que ser mantido.

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Não define qual deva o indexador (INPC, aumento do PIB) mas a referência tem que ser mantida. Então, a gente está indo em direção ao muro, as pessoas estão avisando, e o país continua como se não houvesse amanhã. 

Crise econômica.

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O ponto crítico da crise foi meados de 2016, com a renda caindo 6%, sob estagflação: inflação alta e desemprego alto.

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Aí, o Banco Central fez o dever de casa, com a ajuda da super safra, a inflação caiu e houve um ganho (de renda).

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A renda do trabalho já está crescendo 3,6% (trimestre contra trimestre) para a expectativa de crescimento do PIB de 3%.

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Só que a desigualdade está aumentando. Isso atrapalha a economia, a recuperação e o bem estar social. E pode gerar problema político também. 

Emprego. O herói da retomada foi o Banco Central. Agora não vai ter outra desinflação. Para gerar crescimento, vai ter que ser pela queda do desemprego, o desafio imediato. No longo prazo, o problema do Brasil não vai ser emprego, sobretudo qualificado. Será a  falta de mão de obra, porque o bônus demográfico está acabando. O caso é mais sério no Rio, onde o ápice do bônus demográfico foi em dezembro de 2016. Aqui, a demografia já está jogando contra. A População em Idade Ativa (PIA, pessoas entre 15 e 65 anos) como proporção da população já está caindo.

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No Brasil, começa a cair em 2023 de forma significativa. 

Rio de Janeiro. São três Rios: o estado, a região metropolitana e a capital. A crise chegou primeiro à periferia, na Baixada Fluminense, e agora tem uma boa notícia. Lá, a renda e o emprego já estão voltando a se recuperar. O município do Rio foi o que mais cresceu até meados de 2016. Depois caiu no abismo. Vinha de 50 anos de decadência, mas chegou ao ápice no segundo trimestre de 2016. Foi a capital que mais cresceu nos 27 trimestres antes das Olimpíadas. A gente subiu no Olimpo e se jogou no precipício, em queda livre. Esse é um problema do Rio: sempre morre no fim do filme. Temos dificuldade de lidar com o sucesso. 

Ciclos políticos. Todo ano de eleição é expansionista. Você anuncia que é conservador e expande, gera uma surpresa. Então, 2018 vai ser melhor e 2019 vai ser pior. É do ciclo político. Só teve uma eleição em que a renda não caiu no ano seguinte: 2007. Em 2007 e 2010 não houve o ajuste depois. Acumulamos desequilíbrio e, em 2015, tivemos um ciclo invertido. (O governo) falou que seria expansionista e colocou o Joaquim Levy de ministro da Fazenda. Foi um ciclo político invertido, que causou um grande mal estar.  

Agenda de futuro.  A agenda da juventude é difícil no mundo todo porque jovem é um sujeito que não é entendido pelos pais, por ele mesmo e muito menos pelos governos, em qualquer nível.

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É onde estamos perdendo a guerra, com violência, acidentes de trânsito, drogas, prisões, gravidez precoce.

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E o mais grave é que a agenda de juventude é um problema dos estados: violência, emprego, trânsito, prisões são agendas dos estados, e eles estão muito mais falidos que os municípios, e vão perder receita porque as atividades geradas pela nova economia, como as do Uber, irão para os municípios.

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Falta coordenação sobre uma questão vital para o futuro do país.

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