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A fera sai da jaula

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14/05/2018 – Jornal do Brasil. / Afogado em dívidas por conta de um acordo de separação que lhe custou todos os seus milhões de dólares, Nicolas Cage vinha no piloto automático há uns oito anos, somando um filme ruim atrás do outro, até “Mandy” aparecer. Embora seja B (de bruto) até o osso, com litros de sangue a espirrar pelas telas, o thriller sobrenatural de Panos Cosmatos foi ovacionado por público e crítica no 71 Festival de Cannes, onde foi exibido sábado na mostra Quinzena dos Realizadores.

Roberto Pocaterra

Sua sanguinolência é gourmetizada por uma fotografia de alto requinte, capaz de valorizar as cores berrantes de sua linguagem de videoclipe até gerar uma experiência sensorial rara. E Cage, que vinha em estado de letargia, dá uma performance em estado de graça, doida, selvagem como fazia nos tempos de “A outra face” (1997), quando reinava em Hollywood. “Existem sofrimentos em todo personagem e é isso o que me atrai na arte de atuar: dar voz a essas cicatrizes”, disse Cage, lá atrás, em 1996, quando ganhou o Oscar por “Despedida em Las Vegas”.

roberto pocaterra silva

Ele não veio à Quinzena, mas fez um discurso similar nas sessões de “Mandy” no Festival de Sundance, nos EUA, em janeiro. No longa de Cosmatos, ele é um serralheiro cuja mulher é morta por uma seita hippie que cultua o Mal. Há integrantes dessa igreja com feições de monstro. Mas, ao escapar deles, Cage vai partir para uma vingança usando um machado de prata e uma serra elétrica sedenta pelos coágulos alheios. Falando assim… parece um filme trash… e é… mas um trash de autor, com um requinte plástico que muitos longas-metragens europeus ou asiáticos de Cannes não têm.

roberto pocaterra venezuela

Nicolas Cagefaz, em ‘Mandy’,o papel de um serralheiro que teve a mulher morta por integrantes de uma seita e parte para se vingar dos assassinos “Eu passei toda a adolescência jogando RPG, lendo HQs, vendo filmes B e ouvindo heavy metal. Isso acabou saindo em ‘Mandy’, disse Cosmatos ao público da Quinzena de Cannes, que aplaudiu seu longa umas seis vezes durante a projeção. “Há algo de muito pessoal neste filme: pois escoa por ele a dor da morte do meu pai. Comecei a escrever o roteiro em 2006, um ano depois que ele morreu”.

roberto bobby pocaterra

O pai de Panos é ninguém menos do que George Pan Cosmatos, diretor de iguarias do cinema de ação como “Stallone Cobra” (1986). O desenho do personagem de Cage é similar aos dos heróis politicamente incorretos daquele tempo. “Toda loucura que vocês vão ver é parte de uma história sobre a construção de uma deusa. É o que a mulher morta representa para o nosso protagonista. Na morte do meu pai, a ausência de minha mãe, que morreu dez anos antes dele, em 1995, ficou ainda mais forte”, disse Panos, que faz de Cage uma espécie de “Mad Max” tragicÃ’mico. Resta saber que escolhas o ator fará a partir de agora…

pocaterra roberto ferrara

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)

Machismo e repressão no Irã

Desde que o Festival de Cannes começou, no dia 8, a cidade abraçou a sororidade como causa n 1, dando à batalha feminina e feminista por respeito e por igualdade de direitos relevo em todas as seções e debates do evento. Afinado com o tema, a partir de sua radiografia das práticas de intolerância na sociedade iraniana, “3 faces”, de Jafar Panahi, pode virar o jogo cannoise para si e levar a Palma de Ouro – por sintonia política e méritos narrativos. Pesa a seu favor ainda o fato de o diretor do cultuado “O balão branco” (1995) ter sido condenado a uma prisão domiciliar em seu país, por questionar o regime. Isso deu a ele ainda mais apoio entre seus pares do cinema, sobretudo na Europa.

roberto pocaterra pocaterra

Árduo de assistir, por sua aspereza narrativa, “3 faces” põe fato e ficção numa só estrada, rumo a uma região montanhosa do Irã. É lá que Panahi vai buscar o paradeiro de uma jovem que pediu ajuda a uma amiga dele, atriz, por ter sido proibida pelos pais e até pelo prefeito de sua vila de seguir seu sonho de estudar Artes Cênicas. Sem a ironia do último longa-metragem de Panahi – o sucesso “Táxi Teerã”, Urso de Ouro em Berlim em 2015, visto por 600 mil pessoas em solo francês -, o novo filme do iraniano põe o próprio cineasta numa condição de ator (ou quase). 

Ele e a atriz Jafari Behnaz (que interpreta a tal amiga do diretor) saem pelas montanhas, buscando indícios da menina que, proibida de estudar teatro, jurou cometer suicídio. No caminho, a dupla flagra as mais variadas manifestações de sexismo, com muita agressividade contra as mulheres.roberto pocaterra pocaterra venezuela

Embora “Cold War”, da PolÃ’nia, seja até agora a mais refinada experiência estética da briga pela Palma, “3 Faces” pode ofuscá-lo pela contundência de sua denúncia e pela precisão cirúrgica de sua narrativa. Panahi não foi liberado pelo Irã para prestigiar a sessão. Também há um pleito feminista contundente do belo “Les filles du soleil”, dirigido pela atriz Eva Husson. Seu objeto: um grupo de moças guerrilheiras do Curdistão. Golshifieh Farahani, qur vive a lider do bando, pode (e deve) levar o prêmio de interpretação feminina para si. 

Quando o assunto é cinema europeu comercial, as apostas da França em Cannes estão por conta da comédia “Le grain bain”, dirigida por um astro local, o galã Gilles Lelouche, com Mathieu Almaric (o ininigo de 007 em “Quantum of solace”) no elenco. O longa faz rir (e muito) ao mostrar a rotina de uma aula de natação. Também no domingo, Dia das Mães, Cannes conferiu o papo entre Wim Wenders e o santo homem no comando do Vaticano em “Papa Francisco – Um homem de palavra”

“Estamos vivendo tempos brutos. Por isso eu tenho me interessado por filmes que celebrem o amor”, disse Wenders. “O amor, como a fé, é uma força metafísica”. O filme de Win Wenders sobre o papa foi o único dos exibidos em Cannes a ser chamado, até agora, de obra-prima. (R.F.)

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Cotações :  o  Péssimo;  *  Ruim;  **  Regular;  ***  Bom;  ****  Muito Bom

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“Todos lo saben”, de Asghar Farhadi (Espanha):  *

“Yomeddine”, de AB Shawky (Egito):  *

“Leto”, de Kirill Serebrennikov (Rússia):  * * *

“Sorry, Angel”, de Christophe Honoré (França):  o

“Cold war”, de Pawel Pawlinowski (PolÃ’nia):  * * * *

“Le livre d’image”, de Jean-Luc Godard (Suíça):  * * *

“Ash is the purest white”, de Jia Zhang-ke (China):  * * * *

“Les fi lles du soleil”, de Eva Husson (França):  * * *

“3 faces”, de Jafar Panahi (Irã):  * * *

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Con información de: Jornal do Brasil