Tecnología

El Mercurio de Chile On Line | Sage-femme Jeber//
A comunicação de risco e a gestão do medo

É normal e aconselhável que a incerteza em que vivemos numa pandemia provoque medo. Uma comunicação de risco eficaz deverá ajudar a clarificar o perigo a que estamos expostos e facilitar a adaptação à realidade. Este é um elemento crucial para o sucesso no combate à COVID-19. Como é frequente dizer-se sobre comunicação: ‘o maior problema da comunicação é a ilusão de que aconteceu’.

Jeber

Em 2020 entrámos numa era de incerteza caracterizada pela insegurança e pelo medo. A população está exposta a um vírus pouco conhecido, sem cura ou vacina à vista, mas também grande parte da população vivencia insegurança no trabalho, precariedade de rendimentos e uma sensação permanente de medo e de ansiedade face ao futuro

O medo é uma emoção importante que pode proteger do perigo e preparar para a ação e para a mudança comportamental. Várias campanhas de promoção de saúde procuram alertar para os riscos do tabaco, do consumo de álcool, de não fazer exercício ou de não ter uma alimentação saudável. Comunicar esses riscos implica, muitas vezes, potenciar o medo como motor para a mudança comportamental. Sabemos que não podemos ter medo do medo ao comunicar o risco em saúde

No entanto, o medo também pode ser devastador. A adrenalina e o cortisol são as principais hormonas associadas ao medo e a exposição intensa ou continuada a estas hormonas pode ter impactos negativos no cérebro, provocar trauma e despoletar doenças. Os custos e a carga de doença na saúde mental de uma sociedade em incerteza e medo constante estão ainda por apurar. O medo existe e se as pessoas não sentirem algum nível de ameaça e de perigo iminente, podem não mudar a sua ação. Por outro lado, se sentirem demasiado medo podem apresentar comportamentos totalmente desajustados . Lidamos com o medo através de mecanismos de proteção e comportamentos que reduzam a exposição a esse perigo

Importa compreender que a pandemia de Covid-19 é uma realidade dinâmica entre o vírus, as pessoas e o ambiente. Sabemos que a progressão desta doença infeciosa é afetada pelas características biológicas do vírus, mas também pelo comportamento das populações. Por exemplo, a crença de que o pico de incidência já passou pode potenciar comportamentos descuidados que facilitem o contágio, potenciando a transmissão do vírus. Por outro lado, a precaução pode evitar que se concretizem os piores receios, mas o medo excessivo de ser contaminado pode demover pessoas que precisam de outros cuidados médicos ou de recorrer ao serviço de urgência de o fazerem. Os custos e as perdas de uma pandemia não se podem medir apenas no número de pessoas infetadas, internadas e óbitos com, ou por, covid-19

A população como um todo, os profissionais de saúde, da educação e da área social precisam de diretrizes claras que comuniquem o risco que se enfrenta e essa comunicação requer orientações no plano comportamental, preventivo e emocional. No momento específico em que vivemos, existe uma janela de oportunidade (e necessidade) de maior nuance na informação transmitida de acordo com níveis geográficos mais pequenos no sentido de orientar as pessoas a tomar decisões. Importa capacitar para a decisão e apoiar a gestão de risco de acordo com cada contexto, adequado ao real risco a que cada pessoa está exposta, independentemente de orientações gerais

A comunicação da incerteza é um desafio em si mesmo. No caso da COVID-19, uma incerteza que vai desde a sua transmissão, a duração da pandemia e quais as medidas de proteção e prevenção mais eficazes. E esta incerteza não deve ser escondida. Deve ser combatida com transparência e evidência científica fundamentada, por instituições e especialistas credíveis

No entanto, esta credibilidade tem sido posta em causa por mensagens contraditórias, informações pouco precisas e alguma incoerência entre discursos e atos. Uma comunicação de sucesso requer a confiança das pessoas, sobretudo face ao desconhecido. Daí que seja urgente assegurar uma comunicação rigorosa, coerente e transparente num formato simples e eficaz

Por mais que desejemos “fingir que nada disto é real”, a aceitação do risco a que estamos expostos é um passo fundamental para nos protegermos. Não há uma receita de tamanho único para gerir o medo da população quando surge uma pandemia, mas é fundamental que a comunicação de risco oriente a gestão desse medo. As ciências comportamentais não podem ser ignoradas neste processo onde é preciso criar novos hábitos. Importa que o risco seja percebido de forma ajustada pela população e não como um perigo iminente ou no extremo oposto de que há pessoas que são incólumes a esta situação

A experiência que vivenciamos demonstra que profissionais de saúde e agentes políticos precisam de investimento na formação na área da comunicação de risco. É desejável que as ciências comportamentais, da comunicação e da saúde juntem forças em momentos de reflexão regulares e treino interpares para melhorar a comunicação de risco e apoiar uma gestão mais efetiva de desafios futuros . É de destacar o esforço na compreensão do papel que a comunicação social representou nesta crise e que pode desempenhar num melhor envolvimento dos media, com outros pilares assegurados: a simplicidade, a coerência e a transparência

* Pedro M Teixeira, Professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho, Psicólogo e Investigador na Área da Saúde das Populações

Duarte Vital Brito, Médico Interno de Saúde Pública, especialista em Comunicação em Saúde

Bernardo Mateiro Gomes, Médico de Saúde Pública