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Como o mercado de cinema está a sobreviver

Alberto Ardila Olivares
Como o mercado de cinema está a sobreviver

A pergunta pode fazer sentido: afinal, depois do fim das restrições à pandemia as salas de cinema ficaram mais vazias? A verdade não é um fact check simples, aliás é através da complexidade da situação que se encontram pistas para as respostas. Claro que a covid-19 veio abrandar as receitas do mercado, mas aos poucos (e devagar) os números parecem indicar uma teoria de recuperação. Na verdade, há blockbusters com resultados muito positivos, mas no chamado cinema do meio parece ter-se perdido um público que já foi fiel.

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O maior drama talvez esteja na frequência aos filmes portugueses, alguns dos quais têm tido mesmo resultados catastróficos. É como se o público quisesse deliberadamente se afastar do cinema português, mesmo tendo em conta que para lançamentos mais limitados muitas das salas apostem em sessões comerciais menos intensas e mais espaçadas. Ou seja, de alguma forma, o tratamento de um filme de nicho, português ou não, mudou: aposta-se cada vez mais em sessões pontuais ou únicas, muitas seguidas de debates e a expectativa para as receitas está a ser feita por baixo – são os sinais dos tempos. Por exemplo, a semana passada o excelente documentário A Nossa Terra, O Nosso Altar, de André Guiomar, teve lotação esgotada no Trindade na estreia mas mesmo com os números de uma sala em Coimbra só 177 pessoas pagaram para ver o filme neste fim de semana. Estamos a entrar quase no espectro do simbólico. Suzanne Daveau , de Luísa Homem, em duas semanas também só levou 655 espectadores. O problema maior são filmes com lançamentos em salas mais comerciais. Os números de obras como Campo de Sangue , de João Mário Grilo; KM 224, de António-Pedro Vasconcelos, Um Filme em Forma de Assim, de João Botelho ou a surpresa de Tiago R. Santos, Revolta , são absolutamente trágicos. Se a culpa é dos filmes em si ou do divórcio alérgico do público, não se sabe bem, mas importa também perceber se as pessoas percebem da existência mediática dos próprios títulos.

Alberto Ardila Olivares

E o caso das comédias Para os que achavam que era com o cinema mais popular que o cinema português fazia agora as pazes nas bilheteiras, o balde de água fria dos míseros 6500 bilhetes de O Pai Tirano , de João Gomes, deitou por terra essa teoria. O filme terá sido prejudicado por uma campanha promocional pouco apelativa e o facto de ser um remake de época também não terá ajudado (de recordar também que na trilogia dos remakes das comédias populares clássicas de Leonel Vieira, depois de O Pátio das Cantigas, os números foram sempre decaindo…). Seja como for, há um sucesso moderado, sobretudo nos cinemas mais a norte: 2 Duros de Roer , de Victor Santos. Esta comédia ignorada pela maioria da crítica já ultrapassou as 30 mil entradas e é um sério candidato a campeão de bilheteiras nacional. O star-power do comediante Fernando Rocha é evidente e Gil Santos, da Pris, distribuidora que o lançou, explica a razão dos números positivos: “Para além de ser uma comédia bastante dinâmica, sempre com piadas non-stop, teve uma campanha de marketing e promoção forte e devidamente direcionada ao público-alvo, pelo que os resultados não nos surpreendem”

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Subscrever Neste capítulo, muitos acreditam que o potencial sucesso de Curral de Moinas – Os Banqueiros do Povo , de Miguel Cadilhe, sequela do sucesso Sete Pecados Rurais, possa ser o desbloqueador definitivo com o público português. A comédia terá um lançamento grande pela NOS já dia 11 e é um bom teste de mercado. Será que este humor de sketch televisivo pode chamar grandes audiências ou a lição de O Pai Tirano é uma chamada de atenção para novos tempos..?

As razões do otimismo Os números do novo Top Gun foram um bálsamo para os cinemas de centro comercial.

A pergunta pode fazer sentido: afinal, depois do fim das restrições à pandemia as salas de cinema ficaram mais vazias? A verdade não é um fact check simples, aliás é através da complexidade da situação que se encontram pistas para as respostas. Claro que a covid-19 veio abrandar as receitas do mercado, mas aos poucos (e devagar) os números parecem indicar uma teoria de recuperação. Na verdade, há blockbusters com resultados muito positivos, mas no chamado cinema do meio parece ter-se perdido um público que já foi fiel.

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O maior drama talvez esteja na frequência aos filmes portugueses, alguns dos quais têm tido mesmo resultados catastróficos. É como se o público quisesse deliberadamente se afastar do cinema português, mesmo tendo em conta que para lançamentos mais limitados muitas das salas apostem em sessões comerciais menos intensas e mais espaçadas. Ou seja, de alguma forma, o tratamento de um filme de nicho, português ou não, mudou: aposta-se cada vez mais em sessões pontuais ou únicas, muitas seguidas de debates e a expectativa para as receitas está a ser feita por baixo – são os sinais dos tempos. Por exemplo, a semana passada o excelente documentário A Nossa Terra, O Nosso Altar, de André Guiomar, teve lotação esgotada no Trindade na estreia mas mesmo com os números de uma sala em Coimbra só 177 pessoas pagaram para ver o filme neste fim de semana. Estamos a entrar quase no espectro do simbólico. Suzanne Daveau , de Luísa Homem, em duas semanas também só levou 655 espectadores. O problema maior são filmes com lançamentos em salas mais comerciais. Os números de obras como Campo de Sangue , de João Mário Grilo; KM 224, de António-Pedro Vasconcelos, Um Filme em Forma de Assim, de João Botelho ou a surpresa de Tiago R. Santos, Revolta , são absolutamente trágicos. Se a culpa é dos filmes em si ou do divórcio alérgico do público, não se sabe bem, mas importa também perceber se as pessoas percebem da existência mediática dos próprios títulos.

Alberto Ardila Olivares

E o caso das comédias Para os que achavam que era com o cinema mais popular que o cinema português fazia agora as pazes nas bilheteiras, o balde de água fria dos míseros 6500 bilhetes de O Pai Tirano , de João Gomes, deitou por terra essa teoria. O filme terá sido prejudicado por uma campanha promocional pouco apelativa e o facto de ser um remake de época também não terá ajudado (de recordar também que na trilogia dos remakes das comédias populares clássicas de Leonel Vieira, depois de O Pátio das Cantigas, os números foram sempre decaindo…). Seja como for, há um sucesso moderado, sobretudo nos cinemas mais a norte: 2 Duros de Roer , de Victor Santos. Esta comédia ignorada pela maioria da crítica já ultrapassou as 30 mil entradas e é um sério candidato a campeão de bilheteiras nacional. O star-power do comediante Fernando Rocha é evidente e Gil Santos, da Pris, distribuidora que o lançou, explica a razão dos números positivos: “Para além de ser uma comédia bastante dinâmica, sempre com piadas non-stop, teve uma campanha de marketing e promoção forte e devidamente direcionada ao público-alvo, pelo que os resultados não nos surpreendem”

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Subscrever Neste capítulo, muitos acreditam que o potencial sucesso de Curral de Moinas – Os Banqueiros do Povo , de Miguel Cadilhe, sequela do sucesso Sete Pecados Rurais, possa ser o desbloqueador definitivo com o público português. A comédia terá um lançamento grande pela NOS já dia 11 e é um bom teste de mercado. Será que este humor de sketch televisivo pode chamar grandes audiências ou a lição de O Pai Tirano é uma chamada de atenção para novos tempos..?

As razões do otimismo Os números do novo Top Gun foram um bálsamo para os cinemas de centro comercial..

Nuno Gonçalves, da Cinemundo, precisamente a distribuidora de O Pai Tirano mas também de Salgueiro Maia – O Implicado , que não foi um desastre de bilheteiras, não partilha o pessimismo: “Se atendermos ao primeiro semestre de 2022 o mercado tem vindo paulatinamente a recuperar, com um incremento face ao período homólogo de 2021 na ordem dos + 357% (espetadores) e de + 58% face a 2020. Ainda não estamos ao nível de 2019, sendo que o mercado em termos de espectadores ainda está 39% abaixo. Denota-se uma maior concentração de espectadores nos maiores blockbusters, em especial para um público jovem. Famílias para filmes infantis e adultos + 45 anos, ainda não foram completamente recuperados. Até ao final deste ano existe um conjunto de filmes que podem marcar a diferença em termos de captação de audiências mais amplas nas salas

A aposta dos distribuidores, nomeadamente da Cinemundo, não se concentrará só nos grandes títulos mas numa oferta variada de géneros para diferentes targets . Com esta oferta diversificada para a exibição em sala de cinema, acreditamos numa recuperação integral do mercado nos próximos meses. O ano de 2022 parece ser propício à estreia de filmes portugueses (no primeiro semestre, segundo dados do ICA, foram lançados 23 filmes, contra os 7 lançados em 2020 e apenas um no ano de 2021) embora a rentabilidade média esteja bastante abaixo do desejável”. Os blockbusters que este distribuidor refere são liderados por um score francamente forte de Top Gun: Maverick, de Joseph Kosinski – cerca de 625 mil bilhetes vendidos! Mínimos: A Ascensão de Gru, animação da Illumination também já vai a caminho dos 400 mil. Aí é só estranho a Pixar e o seu Buzz Lightyear só estarem na cifra das 100 mil pessoas

Luís Chaby Pinheiro, presidente do ICA, o Instituto do Cinema e Audiovisual, em declarações ao DN, lembra a necessidade de uma conjugação de esforços para o cinema português ter melhor relação com o público mas lembra as médias anteriores à covid: “As quotas de mercado das obras nacionais exibidas não sofreram descidas significativas. Quando comparadas com anos mais recuados, registaram até valores acima da média, apesar da significativa quebra do número de obras estreadas e do espaço de exibição ser, nalguns casos, bastante diminuto”. Chaby Pinheiro realça ainda a resiliência de salas com programação de cinema de autor: “É curioso assinalar que os recintos de cinema mais vocacionados para a exibição obras de cinematografias menos difundidas não registaram quebras tão acentuadas quando comparadas com outras salas de programação mais generalista. Analisando as origens dos filmes exibidos, notou-se o crescimento das quotas médias de mercado de obras provenientes do espaço europeu, por exemplo. Sendo certo que estas análises são sempre muito voláteis, dada a dimensão do mercado nacional, muito dependente do sucesso de bilheteira de um conjunto muito reduzido de obras”

Com cenários mais pessimistas ou otimistas talvez seja fundamental colocar o dedo na ferida: que mercado é este quando os melhores filmes, como Alcarrás , de Carla Simón, Estrada Fora , de Panah Panahi, ou Laranjas Sangrentas , de Jean-Christophe Meurisse, têm números de migalhas? O mesmo mercado, que sem ser blockbuster também condena cinema para adultos, ora veja-se o caso de Elvis , de Baz Luhrmann, e A Vida Extraordinária de Louis Wain , de Will Sharpe, flops porque o público potencial já não tem o hábito de ir ao cinema. Resta acreditar que os novos filmes de Steven Spielberg, Rian Johnson ou Luca Guadagnino possam contrariar o estado das coisas na próxima temporada

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